terça-feira, 31 de agosto de 2010

Novo Ano Letivo Começando
Qual é mesmo o Sentido da Vida?

Michelangelo Buonarroti, 1511, Capela Sistina.

Mais um ano letivo começa a dar seus primeiros passos e sempre que me pego a pensar sobre “quem” sou e o que farei para que este ano seja melhor do que o ano passado, deparo-me com outro questionamento: “Como” sou?

Para falar a verdade, nem me interesso em saber quem sou e muito menos para onde vou, isto para mim é fato consumado. Entretanto, penso que o que faz a diferença é a ação de como sou. Penso que é nesta questão que gravita toda a existência humana. Se meus alunos me perguntassem, hoje, quem eles são ou o que serão, dira que poderiam ser qualquer coisa, desde que a diferença estive pautada de como eles são ou serão, independente de quem são.

E, uma coisa leva-nos à outra porque é por meio de “como” sou que determino quem sou, mas os valores perderam o rumo e o homem passou a dar uma importância muito maior em “ter” do que “ser”. E nesse jogo acabou por escolher as piores cartas e o que é mais insano ainda, não tem tempo para refletir a respeito e talvez não tenha tempo, justamente, pelas cartas escolhidas.


Lembrando de Robert Happé, aliás, nunca mais vou esquecer-me de Happé que faz uma análise cronológica das dependências humanas desde que o homem existe e de como somos micro e mesquinhos diante da idéia do macro.

Tudo que escrevo não está fundamentado em nada ou está em tudo, se considerarmos que todo, até então, dito está alicerçado em minhas existências. E a questão de quem eu sou torna-se nada se eu não perceber que ela somente vai fazer sentido a partir do outro, da minha ação (e posso escolher que ação tomar, mas nunca esquecendo que toda ação gera uma reação) comunitária.


Todavia, falar, pensar, imaginar, filosofar e escrever é fácil. O “ser peripatético” de Sócrates era válido, é bem verdade, porque jogava o homem a refletir sobre suas ações, entretanto é na prática que as mudanças acontecem. É quando desligo este computador (ou não, porque hoje muitos relacionamentos aqui estão) e me encontro com o outro, é a partir daí que justifico minha estada neste mundo, mas isto tem de acontecer de verdade.

Se levarmos em conta que nada somos individualmente e imaginarmos que estamos todos soltos em um vasto universo, presos em um geóide enorme (sem sustentabilidade atual ou futura), penso que teríamos mais consideração a tudo que nos rodeia, da mesma forma que estamos todos no mesmo barco e que nossas ações é que permitirão a liberdade verdadeira e não essa liberdade efêmera, a qual o homem busca.

Não adianta buscar existências em outras terras ou tentar imaginar que podemos habitar outros planetas. Nossa existência aqui é única e atualmente (ou sempre) estamos de passagem e nunca nos veremos outras vezes, fisicamente falando.

Então, caso eu acredite em tudo isto que estou a escrever, o que faz a diferença realmente? A diferença está na ação do encontro com o outro.

Praticando este acreditar, enquanto professora (porque exercemos vários papéis, até os que não são nossos e ainda, muitas vezes, queremos exercer o do outro) penso que minha prática de mudança dar-se-á a partir do momento que considero meu aluno como um todo, aliás um “único todo” e que deve ser respeitado como tal. Meu papel não é nem encaminhá-lo, mas sim tentar perceber quem está sentado a minha frente e a partir desta percepção, de como ele é ou está, tentar encaminhá-lo. Claro que minha percepção depende muito de quem sou e meu “quem sou” é o resultado de “como sou”.

Se todos empresários considerassem seus operários para além dos portões de suas fábricas e todos os professores levassem em conta que seus alunos são muito mais que alunos, poderíamos imaginar que logo ali, na frente, eles entenderiam que não foram enganados e que as ações eram em benefício de todos. Uma troca sem cobrança; a existência misteriosa, mas que habita somente no outro.

Leonardo Boff fala-nos que o mistério está no outro e não em nós, é no outro que habita o maior desafio porque este entendimento obriga-nos a sair de nós mesmos e a partir do momento que o outro se concretiza a nossa frente nasce à ética, justamente porque o outro nos exige uma atitude prática. O outro significa uma proposta de vida que pede uma res-posta com res-ponsa-bilidade. E pensar de forma contrária é, no mínimo, pretensioso.

Tudo isso podemos traduzir e
m um sentimento que conhecemos pela palavra AMOR. Amor de compreensão, amor de encaminhamento, amor de vida, amor que torna o outro muito mais importante do que ele pensa ser, amor que transforma sem romper limites, amor que ama de verdade sem dar e nem receber, somente existe naturalmente e é a única forma existencial eterna.
É tão simples, somos todos irmãos, todavia, ainda, não percebemos.


Lembrei-me agora de um menino que nasceu há 2010 anos e que dizia assim:
“Amai o próximo como a ti mesmo”.

Se analisarmos um pouco a questão dos escritos, dos Evangelhos canônicos (não quero defender religião alguma, até porque não tenho uma), a grandeza da criação, dá-se a partir da revelação do outro.

Acredito fielmente que se nossas ações não forem individualmente benéficas a todos, de nada vai ter valido a pena, mesmo que nossa alma não seja pequena.

Por fim, o homem busca respostas a questionamentos complexos, mas tudo está em um ato muito simples: Amar o outro. Enquanto pensam, esquecem de praticar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Simplesmente Genet
Às Margens da Loucura Criadora
Literamente Marginal


“A sociedade, tal como vocês a constituem, eu a odeio. Eu sempre a odiei e vomitei. (...) Desde que encontrei na literatura um exutório, meu ódio tomou uma outra forma, menos pessoal: ele não se traduz mais num impulso interior mais ou menos acidental, ele se deduz de uma filosofia aclarada pela experiência. De um rancor nasce uma idéia. E essa idéia torna-se, à medida que avanço dentro de minha obra, mais serena e mais indestrutível. Eu o sei, eu o testemunho: a ordem social não se mantém senão ao preço de uma infernal maldição que aflige os seres, dentre os quais os mais vis, os mais nulos estão próximos de mim – quer isso agrade a vocês ou não – que qualquer burguês virtuoso e assegurado. Para sempre eu me fiz intérprete dos dejetos humanos, dos resíduos que apodrecem nas prisões, debaixo das pontes, no fundo da fétida podridão das cidades”. ( Genet, 1919- 1986)



O Funâmbulo


Jean Genet


"Uma lantejoula de ouro é um disco minúsculo feito de metal dourado, trespassado por um orifício. Tão fina e tão leve que pode flutuar sobre a água. Às vezes, uma ou duas ficam agarradas nos cachos de cabelos de um acrobata.
Este amor – mas, quase desesperado; mas, carregado de ternura – que deves demonstrar ao teu arame, terá a mesma força desse fio de ferro que suportará o teu peso. Conheço os objetos: sua crueldade, sua perversidade e também sua gratidão. O arame estava morto – mudo, cego, como quiseres – ei-lo: agora ele vai viver e vai falar.
Tu o amarás, e de um amor quase carnal. Cada manhã, antes de começar teus treinos, quando ele estiver tenso e vibrante, vai dar-lhe um beijo. Pede que te suporte e te conceda a elegância e um jarrete ágil. Ao fim de cada sessão, reverencia-o, agradece-lhe. E quando, à noite, ele ainda estiver enrolado, guardado em sua caixa, vai vê-lo e o acaricia. E, então, coloca docemente tua face contra a dele.
Certos domadores usam de violência. Podes tentar domar teu arame. Mas, não te fies nisso. O arame, como a pantera e, segundo se diz, como o povo, gosta de sangue. Assim, é melhor tentar domesticá-lo.
Um ferreiro – só um ferreiro de bigodes grisalhos e largas espáduas pode se permitir tais delicadezas – saudava assim, a cada manhã, sua amada, sua bigorna:
- Oh! Minha bela!
De noite, o dia já findo, sua mão calejada a acariciava. A bigorna não parecia insensível àquele gesto e o ferreiro se surpreendia comovido.
Incumbe ao arame executar a mais bela expressão possível; não a tua, mas a dele. Teus pulos, teus saltos, tuas danças – na gíria dos acrobatas, teus volteios, saltos mortais, estrelinhas etc – serão executados não para que brilhes, mas para que o arame, que jazia morto e sem voz, possa, enfim, cantar. E, assim, ele te será grato: se fores perfeito em tuas atitudes, não em busca de tua glória, mas da dele.
Que o público, maravilhado, o aplauda:
_Que arame maravilhoso! Como ele suporta tão bem seu bailarino e como ele o ama!
Ao chegar a tua vez o arame será para ti o mais maravilhoso bailarino.
E, então, será o chão que te fará tropeçar!"

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Escritor Que Sabia Demais

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Orwell tinha uma frase muito sábia que dizia assim: “existem coisas em que só os intelectuais são loucos em acreditar”.

As leituras de férias são sempre compostas por aqueles títulos que deixamos para depois. Leituras igualmente importantes das realizadas fora do período de férias, mas que podem esperar um tempo para serem lidas.
Pois bem, em uma dessas leituras importantes, mas que podia esperar, deparei-me com um artigo muito interessante (com vários), mas esse, especialmente, tratava de uma entrevista ao escritor João Lobo Antunes, irmão do escritor Nuno Lobo Antunes e do escritor António Lobo Antunes, uma família de médicos e escritores. Aliás, interessante desse tríptico formado de nomes e de profissões.

Voltando ao artigo da revista LER - Livros & Leitores, publicada em julho/agosto de 2010, na seqüência da entrevista, na página 20, bem no alto da página havia duas perguntas assim ao escritor:

P1- Queria ainda perceber melhor o que é que espera da Crítica Literária?;
R- O que espero, mas se calhar isto não é legítimo, é uma capacidade de selecção, uma capacidade pedagógica, de me ensinar. Quero alguém cujo magistério me possa ser útil. Que me diga assim: “ Leia isto que vale a pena ler:” Alguém em que eu tenha suficiente confiança para dizer: “ Com certeza, vou seguir o conselho, vou ler.” (João Lobo Antunes)

P2- Para isso é preciso estabelecer um elo de confiança com esse leitor que escreve sobre o que leu
R- Pois é. Há muita crítica literária- e, uma vez mais, digo isto com a maior das humildades- que consiste basicamente em extrair do livro largos excertos da prosa do autor. Mas, como disse, se calhar o problema é meu.(João Lobo Antunes)

Bem, imagino que há uma enorme confusão, tanto no questionamento, como na resposta às duas perguntas. Caso o autor pretenda ter uma dica de leitura por um especialista, neste caso o crítico literário, imagino que ele esteja mencionando a prática pedagógica dentro de uma universidade ou mesmo fora dela, mas efetuada por um especialista e mesmo assim não há garantia de uma boa leitura. Afinal, quem nos garante a certeza na análise do crítico? Como analisa? De que ponto de vista parte e com que autonomia refere-se “àquilo” que não escreveu?

O crítico literário, bem lembrado na concepção do professor Binho, quando lê, aprende a ler com filtros teóricos. Tem a perda de algo que nunca teve de verdade: a leitura inocente, a relação do puro prazer com a literatura. Não tem nenhum ato de linguagem inocente, toda sua leitura é crítica. Falar, escrever, ler e interpretar são ações que acontecem à luz da ideologia que nos constitui, até mesmo quando pregamos a não-ideologia. Esse, às vezes, esquece disso e reflete um vazio de sentido naquilo que rabisca. Escreve para manter a pose intelectual sintonizado com o próprio tempo. Experimenta uma inteligência artificial que periga apagar para sempre sua sensibilidade. Fica, muitas vezes, confuso e impotente com tantas teorias da interpretação. Tece para uma academia que declarou o fim da leitura livre e instaurou o discurso da crítica acadêmica mecanicamente especializada.

Por fim, caso estivéssemos a falar em uma classificação literária, entre a boa e a ruim, para além de questionarmos a condiçao do crítico literário, questiono também a marginalidade da literatura, ou seja, obras hoje consagradas que em outros tempos eram consideradas à margem (Poe, Fante, Jean Genet, Bukowski, Blake, Samuel Beckett, Jack Kerouac, Burroughs, Camões, Junqueira, António Patrício, Gregório de Mattos e Guerra, Chico Buarque, Cora Coralina, Carolina De Jesus, Cruz e Sousa, entre tantos outros ) e muitas, inclusive, proibidas de publicação. E, com isso, o círculo se fecha na intencionalidade dessa classificação.

A prática pedagógica, mencionada pelo escritor, está fora de questão, o que vale mesmo a pena é ( e para todos os casos, se nossa alma não for pequena) nosso aluno ter tempo para poder selecionar uma boa leitura, ou melhor, aquela que ele considera uma boa leitura e a partir daí ter um crescimento literário que possa agregar as demais leituras indicadas.

*______________ Ilustração de Irene Sheri, Ucrânia/1968.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Saramago e o Atos de Ler e Escrever


"Escrever é traduzir, mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua.
Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir, mas um sombra ao menos, do que no fundo do nosso espírito sabemos bem ser intraduzível, por exemplo, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugas de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o rasto de um sonho que o tempo não apagará por completo". José Saramago.


Quiçá, "às circunstâncias e aos acasos da comunicação" possam ser entendidos como aqueles momentos únicos, vividos em sala de aula, nos quais o professor é o caminho, não atravessador, mas verdadeiramente educador.
Da mesma forma que podem ser entendidos pela oportunidade perdida de não conseguir chegar "à inteligência do leitor".
O estímulo à leitura precisa partir do entendimento que todos são leitores e estimular nem sempre significa aumentar a leitura, mas sim considerar as leituras que nosso aluno já utiliza e a partir delas encorajar que se crie um campo de leitura maior.
Imaginamos que nesse caminho, como dizia o próprio Saramago, não chegaremos a essência entendida da escrita que se quer transmitir, mas um novo campo se cria, um novo espaço dialético se forma e faz coexistir ambas linguagens, sonhos, imaginação, intenção de autor e leitor.

sábado, 26 de junho de 2010

Um Nobre Saramago*____
A Literatura Agradece!


Engraçado como a memória de algumas pessoas entra em colapso e se perde no próprio esquecimento quando alguém morre. Se for alguém famoso então, parece que da noite para o dia tudo muda de figura, inclusive até a própria figura que de tanto desfigurada com os dizeres temporais é relembrada.
Quantas palavras jogadas fora, quanto tempo perdido diria aquele menino de Azinhaga, tímido e de um coração que somente poucos tiveram o privilégio de conhecer.
Imagino que Saramago tenha vivido o que poucos homens viveram nessa vida. Uma vida feita de dizeres que se queria dizer, dizeres soltos no tempo que com o tempo foram, vagarosamente, percebidos. E um grande amor.
Pilar, pilares de uma lembrança de menino.
A saudade deixada por Saramago é para além dos escritos e fica bem dita em suas próprias palavras.


“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, não dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e de outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de África, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encontraria?"
Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo que é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser. Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia (…)”.
“(…)Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo”.


Por JOSÉ SARAMAGO
Estocolmo, 07 de Outubro de 1998.


*__________ Saramago nunca foi o seu apelido (sobrenome) e sim era alcunha (apelido) da família dos Sousa; uma erva daninha, comestível, anual ou bienal, da família das Crucíferas que nasce sem a necessidade do cultivo, da mesma forma que existe por todo país Portugal.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Educação e o Ensino da Literatura

A literatura universal compreende difusões de cultura de diferentes povos; Santos e Pereira (1999:18) comentam “que existem diferentes contribuições à literatura universal, à grande literatura”. Abrindo um pouco com a idéia de literatura universal, os autores complementam que “não existem literaturas menores, mas contribuições distintas no conceito da literatura universal”. Estas contribuições acontecem em vários níveis, entre: os autores; autores e leitores; autores, educadores e leitores, formando um grande grupo literário, o que exige certa compreensão de todos os seus membros, que forma opiniões e necessitando o respeito mútuo, para que seja alcançado um dos principais objetivos da literatura, que é a comunicação por meio da troca de idéias, sem espaço para a distinção cultural e conseqüentemente, inserindo realidades, fazendo ligações entre diversos mundos possíveis a arte literária retrata a própria condição de existir.
Se pararmos para analisar em que o conceito estrutural filosófico e pedagógico está o embasamento da literatura universal, veremos que o da literatura universal, está compreendido a partir de um determinado grupo de obras que emergem de um determinado histórico-social-cultural para fazer parte, fragmentado em diversos períodos que vão determinar a grande literatura. Logo, o que forma a grande literatura e a escola, se não os fragmentos da interação de todos, de cada época literária e do seu tempo correspondente? Ou seja, duas partes que interagem para formar para todos, neste caso para a formação da grande literatura universal e da formação do homem.
Ora, se a literatura é uma das formas de linguagem, para além disso ela dialoga com o leitor e cria no indivíduo um ajustamento para com o mundo e por meio desse ajustamento acaba por inserir o aluno via conhecimento de outros mundos, logo, poderíamos pensar que a mesma é autônoma, para além imaginarmos que ela seja uma ciência por dar um novo prisma para outras áreas.
Essa troca de informações, idéias e cultura, fazem da literatura uma grande expressão da arte, tendo capacidade integradora, em que retoma e atualiza a própria condição existencial de um ser situado, que não conhece o mundo como uma coleção de objetos diante de si, mas como horizonte originário do sentido que se materializa em cada experiência vivida. Lembrando Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2002).
Logo, muitas questões cercam a intencionalidade da Educação e conseqüentemente da literatura, uma vez que esta é parte integrante da cultura escolar , bem como o conceito da disciplina de literatura, pois a mesma sempre esteve à mercê de seus períodos históricos e sociais que determinavam seu ensinamento.
Quando refletimos sobre a forma metodológica do ensino da literatura, e analisamos a respeito da aversão dos nossos alunos às obras literárias, ocorrem-nos sempre os problemas de ensinamentos dos textos literários. Obras fora do contexto atual e longe da realidade estudantil. Da mesma forma em que há diferenças substantivas e subjetivas na maneira na qual os professores encaram e exercem o ensino da literatura no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa.
Todavia, antes de analisarmos a parte comportamental de nossos alunos diante do conteúdo da disciplina de literatura, há de se fazer uma fundamental ressalva na problemática do ensino, neste caso para a formação de professores do Curso de Letras, que reside no tratamento generalizado para o ensino da disciplina de literatura no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa.
Essa máquina educacional acaba por produzir em série um corpo discente despreparado, do mesmo jeito que forma sem a preocupação de como esse grupo discente vai se tornar docente (professores de literatura) e como usará as metodologias ensinadas. Na seqüência dos fatos essa mesma máquina institucional acaba por receber um novo grupo de alunos formado por aqueles que ela própria certificou sendo aptos a ministrarem. Sendo assim, o ciclo está fechado de forma viciosa e trazendo consigo a falta de leitores aptos para o mundo literário.
Logo, uma nova competência à capacidade de organizar e de dirigir situações de aprendizagem faz-se necessária, porque cada aluno, sem dúvida alguma, vivência à aula conforme o seu humor, sua capacidade de concentração e tudo que lhe ligue ao mundo que o interessa no que aprendeu e na literatura não se dá de forma desigual.
Desta forma, entendemos que o ensino da leitura literária não pode ser apenas imposto, ele deve sim, ser incentivado, pois, sempre que possível, dar liberdade de escolha. Da mesma forma que entendemos que esse processo somente se dará diante de professores preparados para ministrarem tais ensinamentos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Literatura em Pauta

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Realizado pela PUC do Rio Grande do Sul, o II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil e o I Fórum Latino- Americano de Pesquisadores de Leitura aconteceram na cidade de Porto Alegre, nos dias 12, 13 e 14 de maio.
Com objetivos voltados para a ampliação da rede de pesquisadores em leitura, o II Congresso criou um espaço dialéctico para tratar das estratégias de promoção de leituras e formação de leitores, bem como ensejou a troca de experiências pelos profissionais que atuam em diversos contextos educacionais e sociais na promoção da leitura, do livro e da literatura. Diversos foram os simpósios apresentados que partiram desde a leitura e a alfabetização até às leituras tecnológicas.
Com presenças marcantes, entre elas a de Francisco Gregório Filho, contador de histórias, Patrícia Correa, da Colômbia, Emmanuel Fraisse, da Universidade de Sorbonne, Affonso Romano, poeta e escritor, esse encontro mostrou as diversas práticas desenvolvidas em todo o contexto latino americano em prol da formação de leitores e seus resultados. Uma atitude louvável de/para cidadania.
A formação de leitores é uma estratégia de inserção do sujeito ao mundo, do conhecimento. Assim como a onda da alfabetização espalhou-se pelos maiores e melhores pontos educacionais de acesso. Maiores e melhores porque ainda temos analfabetos e, consequentemente, não leitores, da mesma forma que temos alfabetizados que também não são leitores. Logo, inúmeros ainda são os sujeitos desse mundo que precisam ser formados, tanto com a antiga alfabetização ou com a nova alfabetização.
Quando tentamos fazer uma ligação entre a intencionalidade da alfabetização e da formação de leitores, percebemos que ambas intenções emergem de um sistema político/educacional que precisa estimular no presente o que deixou de atender no passado.
Das diversas propostas apresentadas ao estímulo à formação de leitores, muitas caracterizadas pelo contato do sujeito com o livro e muitos pela primeira vez, percebe-se um estímulo que atende a um certo programa articulado para formação desses leitores. Todavia, a maioria dos programas não visa estimular o sujeito a partir dele mesmo. Ou seja, um programa que leve em consideração aquilo que o indivíduo já tem como formação da leitura, leitura de si e dos demais.
Partindo da idéia que estamos trabalhando com indivíduos já alfabetizados, precisamos considerar que todos já são leitores. Leitores do seu tempo, do seu espaço, do seu contexto e, principalmente, leitores daquilo que os interessa. Simplificando mais a idéia, todo material para a formação de leitores deveria partir das “mãos dos alunos”, daquilo que eles escolheram para fazer parte do seu dia a dia. Afinal, não podemos esquecer, entre muitos detalhes, que o sujeito que queremos formar como leitor já lê, e considerar aquilo que ele utiliza como leitura diária é fundamental.
Agora, é certo que esta metodologia foge aos programas elaborados, da mesma forma que dá mais trabalho e, acima de tudo, requer profissionais qualificados para fazer a ligação entre o que já é lido com aquilo que se intenciona que o aluno leia, uma leitura intencional que consideramos valida para formação do sujeito.
Outro fator que deve ser levado em consideração e que para nós é primordial é o material preparado, selecionado, recomendado e aprovado, considerado bom para formação de leitores e que faz parte das listas dos programas de leituras pelo mundo a fora. Não se questiona com isso a obra em si, ou talvez se leve em consideração fatores como valores da ética e da moral, os quais a sociedade atual está mergulhada. Entretanto, precisamos ficar atentos se aquilo que se recomenda é, realmente, aquilo que se quer ler, porque se a formação da leitura não passar pela vontade do leitor, pela curiosidade dele, de nada vai adiantar e cada dia mais teremos de criar métodos de leituras para formar pessoas que já lêem, mas que suas leituras não são consideradas. Para além disso, seguir aos programas recomendados, com obras indicadas, dá-nos a idéia de termos, novamente, um método tradicional só que desta vez paralelo a escola. Paralelismo que acaba por se confundir com a própria escola, não considerando seus alunos como seres participativos. Alguns diriam para essa observação que muitos são os fatores que formam e influenciam o sujeito, mas que o nobre educador Paulo Freire nunca leia isso, pois ele bem fez surgir da miséria completa, de fome e de dignidade, quarenta e cinco alfabetizados leitores. Alunos pioneiros de um projeto que ensinava a ler no chão batido de Pernambuco e que traziam para essa “escola”, a céu aberto, as suas experiências de vida como material didático.
Por fim ou para um começo nobre dentro da formação de leitores, não podemos esquecer que estamos formando leitores e formar leitor é um processo inicial e como todo processo inicial precisa começar a partir de um espaço alcançável, “entendível” e que aguce a curiosidade. Ninguém forma leitor com obras consagradas ou indicadas que estão fora do entendimento do sujeito ou mesmo esquecendo que o aluno já é um leitor.
Precisamos considerar e respeitar o espaço que nosso aluno gosta de estar, o mundo dele. Ou entramos nesse mundo e a partir daí o “formamos” contextualizando nosso aluno com tudo que já o faz sujeito ou estamos fadados a inventar modelos, dentro ou fora da escola, que nunca terão bons resultados. Ou será que é essa a verdadeira intenção dentro da alfabetização e da formação de leitores?

**© 1998 The Munch Museum / Munch-Ellingsen Group / Artists Rights Society (ARS), New York./Bridgeman Art