sábado, 26 de junho de 2010

Um Nobre Saramago*____
A Literatura Agradece!


Engraçado como a memória de algumas pessoas entra em colapso e se perde no próprio esquecimento quando alguém morre. Se for alguém famoso então, parece que da noite para o dia tudo muda de figura, inclusive até a própria figura que de tanto desfigurada com os dizeres temporais é relembrada.
Quantas palavras jogadas fora, quanto tempo perdido diria aquele menino de Azinhaga, tímido e de um coração que somente poucos tiveram o privilégio de conhecer.
Imagino que Saramago tenha vivido o que poucos homens viveram nessa vida. Uma vida feita de dizeres que se queria dizer, dizeres soltos no tempo que com o tempo foram, vagarosamente, percebidos. E um grande amor.
Pilar, pilares de uma lembrança de menino.
A saudade deixada por Saramago é para além dos escritos e fica bem dita em suas próprias palavras.


“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, não dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e de outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de África, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encontraria?"
Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo que é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser. Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia (…)”.
“(…)Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo”.


Por JOSÉ SARAMAGO
Estocolmo, 07 de Outubro de 1998.


*__________ Saramago nunca foi o seu apelido (sobrenome) e sim era alcunha (apelido) da família dos Sousa; uma erva daninha, comestível, anual ou bienal, da família das Crucíferas que nasce sem a necessidade do cultivo, da mesma forma que existe por todo país Portugal.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Educação e o Ensino da Literatura

A literatura universal compreende difusões de cultura de diferentes povos; Santos e Pereira (1999:18) comentam “que existem diferentes contribuições à literatura universal, à grande literatura”. Abrindo um pouco com a idéia de literatura universal, os autores complementam que “não existem literaturas menores, mas contribuições distintas no conceito da literatura universal”. Estas contribuições acontecem em vários níveis, entre: os autores; autores e leitores; autores, educadores e leitores, formando um grande grupo literário, o que exige certa compreensão de todos os seus membros, que forma opiniões e necessitando o respeito mútuo, para que seja alcançado um dos principais objetivos da literatura, que é a comunicação por meio da troca de idéias, sem espaço para a distinção cultural e conseqüentemente, inserindo realidades, fazendo ligações entre diversos mundos possíveis a arte literária retrata a própria condição de existir.
Se pararmos para analisar em que o conceito estrutural filosófico e pedagógico está o embasamento da literatura universal, veremos que o da literatura universal, está compreendido a partir de um determinado grupo de obras que emergem de um determinado histórico-social-cultural para fazer parte, fragmentado em diversos períodos que vão determinar a grande literatura. Logo, o que forma a grande literatura e a escola, se não os fragmentos da interação de todos, de cada época literária e do seu tempo correspondente? Ou seja, duas partes que interagem para formar para todos, neste caso para a formação da grande literatura universal e da formação do homem.
Ora, se a literatura é uma das formas de linguagem, para além disso ela dialoga com o leitor e cria no indivíduo um ajustamento para com o mundo e por meio desse ajustamento acaba por inserir o aluno via conhecimento de outros mundos, logo, poderíamos pensar que a mesma é autônoma, para além imaginarmos que ela seja uma ciência por dar um novo prisma para outras áreas.
Essa troca de informações, idéias e cultura, fazem da literatura uma grande expressão da arte, tendo capacidade integradora, em que retoma e atualiza a própria condição existencial de um ser situado, que não conhece o mundo como uma coleção de objetos diante de si, mas como horizonte originário do sentido que se materializa em cada experiência vivida. Lembrando Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2002).
Logo, muitas questões cercam a intencionalidade da Educação e conseqüentemente da literatura, uma vez que esta é parte integrante da cultura escolar , bem como o conceito da disciplina de literatura, pois a mesma sempre esteve à mercê de seus períodos históricos e sociais que determinavam seu ensinamento.
Quando refletimos sobre a forma metodológica do ensino da literatura, e analisamos a respeito da aversão dos nossos alunos às obras literárias, ocorrem-nos sempre os problemas de ensinamentos dos textos literários. Obras fora do contexto atual e longe da realidade estudantil. Da mesma forma em que há diferenças substantivas e subjetivas na maneira na qual os professores encaram e exercem o ensino da literatura no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa.
Todavia, antes de analisarmos a parte comportamental de nossos alunos diante do conteúdo da disciplina de literatura, há de se fazer uma fundamental ressalva na problemática do ensino, neste caso para a formação de professores do Curso de Letras, que reside no tratamento generalizado para o ensino da disciplina de literatura no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa.
Essa máquina educacional acaba por produzir em série um corpo discente despreparado, do mesmo jeito que forma sem a preocupação de como esse grupo discente vai se tornar docente (professores de literatura) e como usará as metodologias ensinadas. Na seqüência dos fatos essa mesma máquina institucional acaba por receber um novo grupo de alunos formado por aqueles que ela própria certificou sendo aptos a ministrarem. Sendo assim, o ciclo está fechado de forma viciosa e trazendo consigo a falta de leitores aptos para o mundo literário.
Logo, uma nova competência à capacidade de organizar e de dirigir situações de aprendizagem faz-se necessária, porque cada aluno, sem dúvida alguma, vivência à aula conforme o seu humor, sua capacidade de concentração e tudo que lhe ligue ao mundo que o interessa no que aprendeu e na literatura não se dá de forma desigual.
Desta forma, entendemos que o ensino da leitura literária não pode ser apenas imposto, ele deve sim, ser incentivado, pois, sempre que possível, dar liberdade de escolha. Da mesma forma que entendemos que esse processo somente se dará diante de professores preparados para ministrarem tais ensinamentos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Literatura em Pauta

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Realizado pela PUC do Rio Grande do Sul, o II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil e o I Fórum Latino- Americano de Pesquisadores de Leitura aconteceram na cidade de Porto Alegre, nos dias 12, 13 e 14 de maio.
Com objetivos voltados para a ampliação da rede de pesquisadores em leitura, o II Congresso criou um espaço dialéctico para tratar das estratégias de promoção de leituras e formação de leitores, bem como ensejou a troca de experiências pelos profissionais que atuam em diversos contextos educacionais e sociais na promoção da leitura, do livro e da literatura. Diversos foram os simpósios apresentados que partiram desde a leitura e a alfabetização até às leituras tecnológicas.
Com presenças marcantes, entre elas a de Francisco Gregório Filho, contador de histórias, Patrícia Correa, da Colômbia, Emmanuel Fraisse, da Universidade de Sorbonne, Affonso Romano, poeta e escritor, esse encontro mostrou as diversas práticas desenvolvidas em todo o contexto latino americano em prol da formação de leitores e seus resultados. Uma atitude louvável de/para cidadania.
A formação de leitores é uma estratégia de inserção do sujeito ao mundo, do conhecimento. Assim como a onda da alfabetização espalhou-se pelos maiores e melhores pontos educacionais de acesso. Maiores e melhores porque ainda temos analfabetos e, consequentemente, não leitores, da mesma forma que temos alfabetizados que também não são leitores. Logo, inúmeros ainda são os sujeitos desse mundo que precisam ser formados, tanto com a antiga alfabetização ou com a nova alfabetização.
Quando tentamos fazer uma ligação entre a intencionalidade da alfabetização e da formação de leitores, percebemos que ambas intenções emergem de um sistema político/educacional que precisa estimular no presente o que deixou de atender no passado.
Das diversas propostas apresentadas ao estímulo à formação de leitores, muitas caracterizadas pelo contato do sujeito com o livro e muitos pela primeira vez, percebe-se um estímulo que atende a um certo programa articulado para formação desses leitores. Todavia, a maioria dos programas não visa estimular o sujeito a partir dele mesmo. Ou seja, um programa que leve em consideração aquilo que o indivíduo já tem como formação da leitura, leitura de si e dos demais.
Partindo da idéia que estamos trabalhando com indivíduos já alfabetizados, precisamos considerar que todos já são leitores. Leitores do seu tempo, do seu espaço, do seu contexto e, principalmente, leitores daquilo que os interessa. Simplificando mais a idéia, todo material para a formação de leitores deveria partir das “mãos dos alunos”, daquilo que eles escolheram para fazer parte do seu dia a dia. Afinal, não podemos esquecer, entre muitos detalhes, que o sujeito que queremos formar como leitor já lê, e considerar aquilo que ele utiliza como leitura diária é fundamental.
Agora, é certo que esta metodologia foge aos programas elaborados, da mesma forma que dá mais trabalho e, acima de tudo, requer profissionais qualificados para fazer a ligação entre o que já é lido com aquilo que se intenciona que o aluno leia, uma leitura intencional que consideramos valida para formação do sujeito.
Outro fator que deve ser levado em consideração e que para nós é primordial é o material preparado, selecionado, recomendado e aprovado, considerado bom para formação de leitores e que faz parte das listas dos programas de leituras pelo mundo a fora. Não se questiona com isso a obra em si, ou talvez se leve em consideração fatores como valores da ética e da moral, os quais a sociedade atual está mergulhada. Entretanto, precisamos ficar atentos se aquilo que se recomenda é, realmente, aquilo que se quer ler, porque se a formação da leitura não passar pela vontade do leitor, pela curiosidade dele, de nada vai adiantar e cada dia mais teremos de criar métodos de leituras para formar pessoas que já lêem, mas que suas leituras não são consideradas. Para além disso, seguir aos programas recomendados, com obras indicadas, dá-nos a idéia de termos, novamente, um método tradicional só que desta vez paralelo a escola. Paralelismo que acaba por se confundir com a própria escola, não considerando seus alunos como seres participativos. Alguns diriam para essa observação que muitos são os fatores que formam e influenciam o sujeito, mas que o nobre educador Paulo Freire nunca leia isso, pois ele bem fez surgir da miséria completa, de fome e de dignidade, quarenta e cinco alfabetizados leitores. Alunos pioneiros de um projeto que ensinava a ler no chão batido de Pernambuco e que traziam para essa “escola”, a céu aberto, as suas experiências de vida como material didático.
Por fim ou para um começo nobre dentro da formação de leitores, não podemos esquecer que estamos formando leitores e formar leitor é um processo inicial e como todo processo inicial precisa começar a partir de um espaço alcançável, “entendível” e que aguce a curiosidade. Ninguém forma leitor com obras consagradas ou indicadas que estão fora do entendimento do sujeito ou mesmo esquecendo que o aluno já é um leitor.
Precisamos considerar e respeitar o espaço que nosso aluno gosta de estar, o mundo dele. Ou entramos nesse mundo e a partir daí o “formamos” contextualizando nosso aluno com tudo que já o faz sujeito ou estamos fadados a inventar modelos, dentro ou fora da escola, que nunca terão bons resultados. Ou será que é essa a verdadeira intenção dentro da alfabetização e da formação de leitores?

**© 1998 The Munch Museum / Munch-Ellingsen Group / Artists Rights Society (ARS), New York./Bridgeman Art

segunda-feira, 26 de abril de 2010

José Saramago e a Leitura

José Saramago e algumas dicas importantes à formação de leitores:


Estímulo à leitura
José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, diz que "o estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer", opinou. "As coisas vão mal quando é preciso estimular. Ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol", disse, lembrando que por trás do esporte há uma "operação de propaganda fabulosa".



Educação
Saramago afirma ainda que atualmente se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados", questionou, dizendo que eles "são os heróis do nosso tempo". No entanto, lembra que há "professores incompetentes", que trabalham "sem vocação". E fez uma recomendação: a leitura em voz alta deve ser encorajada na sala de aula.


Gramática
O Nobel da Literatura também criticou a linha de ensino que prega que a correção ortográfica não é importante. "Qualquer operário sabe que tem que ter suas ferramentas limpas e em condições de serem usadas. A língua é a ferramenta por excelência".



*Fontes preservadas pelo blog.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Prazer do Texto
Por Rubem Alves


"(...) Toda aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontecerá. Há aquele velho ditado: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber“. Traduzido pela Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero é fome“. Metáfora para o professor: cozinheiro, Babette, que serve o aperitivo para que a criança tenha fome e deseje comer o texto...
Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema – aquele poema que eu amava – estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra“ está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretação do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres...) as toca: seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.
Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer:queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a prática de “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. Leitura é droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos - gramática, usos da partícula “se“, dígrafos, encontros consonantais, análise sintática –que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura...



APERITIVOS
1.“Analfabeta não é a pessoa que não sabe ler. É a pessoa que, sabendo ler, não gosta de ler.“ (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mário Quintana).
2.A menininha de 9 anos me explicou como as crianças na sua escola aprendiam a ler: “Aqui na Escola da Ponte não aprendemos letras e silabas. Só aprendemos totalidades...“
3.Os compositores colocam em suas partituras indicações para orientar o intérprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam fazer o mesmo com seus textos. Há textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente não precisa dessas indicações. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.
4. “Mais valem dois marimbondos voando que um na mão“ (Almanak do Aluá).
5. Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola lhe ensinaram um ditado: “Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém“. Ele repetia o ditado mas ficava com uma dúvida: “Quem será esse ‘Tertião’?“
(Correio Popular, Caderno C, 19/07/2001.) ".

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Literatura, Literacia e Formação de Leitores

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Segundo Benavente, a priori tínhamos a alfabetização como método de acesso do homem com o mundo, todos deveriam saber ler e escrever para estarem inseridos na sociedade, caso não soubessem eram considerados excluídos. Com o passar do tempo e com os primeiros estudos realizados nos Estados Unidos da América, verificou-se que os indivíduos, mesmo alfabetizados, não conseguiam fazer uso deste aprendizado para o dia a dia de suas vidas. Foi então que nasceu a versão da nova alfabetização, ficando esta com a capacidade de domínio destas práticas aprendidas, como ler, escrever e fazer calculos.
No estudo que realizou sobre Literacias em Portugal, Benavente constatou, dentro de um grupo específico sobre periodicidade e tipos de leituras, que a leitura dos livros anda distante , da mesma forma que os tipos de leituras estão longe das obras literárias. A autora diz-nos:

“(…) A leitura de livros é rara dentro do grupo (apenas três jovens a indicam como forma de ocupar os tempos livres), sendo em geral restrita à banda desenhada (…)” (BENAVENTE, 1996: 260-262)

Portugal ocupa o segundo lugar dentro do Continente Europeu de não fazer uso do hábito da leitura. Ao quererem atribuir este fato aos preços dos livros, em entrevista a Rádio Notícias TSF , na época o atual presidente da APEL Rui Beja diz com relação aos preços dos livros que estes estão ligados a demanda de tiragem em cada país, ou seja, quanto maior a tiragem teremos uma queda no preço da obra e que consequentemente os altos preços em Portugal estão ligados diretamente aos níveis de literacias e aos hábitos de leituras no país.
Fato este já percebido e anunciado anteriormente pela escritora Isabel Alçada, que alertava para necessidade de se criar métodos para o desenvolvimento afetivo de leitores com os livros:

“(…) é preciso criar o hábito da leitura (…)”. (ALÇADA, 2007)

Segundo Becker, o professor deve oferecer formas didácticas diferenciadas, que venham ao encontro do que os alunos gostem para que os mesmos sintam o desejo de ler. Na maioria dos casos, os alunos apresentam predisposição para não gostar da disciplina de literatura justamente porque a soma do conteúdo literário estudado em sala de aula, geralmente, como já citamos, com uma escrita requintada para as necessidades sociais de época, mas que para o contexto atual, faz-se completamente fora de sentido e desatualizada dentro da vida do aluno do século XXI e somada a metodologia aplicada fazem com que o aluno tenha uma predisposição a não se interessar pela disciplina.
Daí, a necessidade de implementar uma metodologia que busque ensinar a literatura de uma forma direccionada, afim de resgatar o leitor. Caso contrário, não teremos leitores, mas sim “leitores” para atingir as necessidades, somente curriculares. Entende-se, com isso, que há uma ligação muito próxima entre a literatura e a formação do indivíduo, ultrapassando todo e qualquer parâmetro, somente, curricular, e isso se dará à medida que tivermos autênticos leitores; uma forma de chegar à formação literária pelo o que o nosso aluno gosta de ler. (BECKER, 2005:43).
Uma opção que nos parece plausível, aplica-se a partir da prioridade que devemos ter sobre todo esse entendimento de mudanças que as sociedades atravessaram e entendermos que diante de nós está um aluno do século XXI e não dos séculos passados, o qual se utiliza de uma linguagem totalmente diferenciada dos textos que precisam estudar. E para, além disso, são leitores de tempo algum, a não ser do que lhes interessa.
Inúmeras são as possibilidades de inserção da Literatura Marginal dentro da sala de aula, podemos começar por formar leitores para podermos ensinar a literatura a partir das obras que nossos alunos gostam de ler, que nos parece a mais justa. Quando refletimos a respeito de não termos leitores ou quando nossa reflexão passa para o abandono escolar, sempre nos vem à mente a idéia que estas perdas estão relacionadas ao fato de que a escola não respeita as diversidades culturais existentes dentro dela, da mesma forma que pretende impor seus valores, via suas metodologias.
____________*Leitura no Domaine de Nerige, s/d; Alex Russell Flint ( Reino Unido)
óleo sobre tela

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quando o Aluno NÃO Lê
Para Professores e Pais


O Projeto Livro Aberto tem algumas dicas para quando o aluno NÃO lê, são elas:


*Ame o que faz;
*Procure perceber e entender o(s) motivo(s)pelo qual o aluno Não lê;
*Leia, o exemplo é muito mais educativo do que mil palavras;
*Nunca troque o que será lido por pontos na média;
*Tenha um olhar individual sobre a turma;
*Não faça da Literatura uma ferramenta para passar nos Exames Nacionais/Vestibular;

A partir daí:


*Faça da leitura um prazer;

*Mostre a importância que o aluno tem para você;

*Valorize a produção do aluno e as leituras que ele JÁ faz;

*Mostre que está possuído pelo texto que você ensina;

*Torne o texto um atrativo;

*Faça do texto um contexto;

*Do texto e contexto atual, interaja esse texto com a vida do aluno;

*Mostre e viva a riqueza da intertextualização;

*Transforme o texto em um cenário;

*Busque recursos para as leituras (criatividade, interação,
imaginação,tecnologias, cenários, figurinos etc);

*Que tal o professor ser o próprio escritor em estudo?;

*Junte as artes da escrita (Literatura), do movimento (Dança) e da dramatização (Teatro);

*Leia em voz alta para o seu aluno;

*Transforme sua sala de aula em um momento mágico de leitura;

*Mostre ao seu aluno a importância da Literatura na formação do Indivíduo;


*E nunca deixe para depois o que pode ser lido hoje. Porque a maior frustação que um aluno pode ter é quando ele chega para o professor, fala sobre o que está lendo e o professor diz: "Podemos ver isso amanhã?"